Arquivos Mensais: Outubro 2007

As pessoas gostam de saber a verdade, mas não sabem muito bem como a enfrentar. Será porque magoa assim…muito? Será porque nos sentimos, digamos…um pouco melhor, por alguém, teoricamente, não nos esconder mais nada? Quando essa verdade não nos convém, mas mesmo assim insistimos espontaneamente em querer saber, sendo duros para nós próprios… pois claro, precisamos ou pensamos que precisamos de saber tudo acerca de determinada coisa. Às vezes temos até uma ideia, uma leve suspeita do que nos vai ser dito, um caricato pressentimento que algo não está a correr como queríamos. Mas ainda assim… temos de saber. O que pedimos por vezes conduz-nos ao que não queremos ouvir. Não… nem pensar, não pode ser.Mas o mais estranho é que é mesmo. Ou talvez não. Nós é que pensávamos que não podia ser. E depois ouvimos, lemos, sentimos aquilo que era suposto não acontecer na nossa imensa imaginação.  E a nossa reacção é quase sempre a mesma: Eu já sabia! O que é uma força de expressão, porque não sabíamos nada, nada de nada. Eu já sabia, é que era o meu pior pesadelo… isto é o que as pessoas querem dizer quando dizem: eu já sabia. Ou então um atónito: “não posso acreditar!”, claro que se pode acreditar, ou melhor deve-se acreditar. Ou será que nos querem confundir? E pronto aquilo que ambicionávamos saber está escarrapachado á nossa frente. Sim… depois já podemos respirar, só um bocadinho, porque depois temos muito por onde escolher: apatia, lágrimas, desespero, descontrolo, raiva e finalmente resignação. E depois, não nos lembramos de nada para contrapor a verdade e nada nos faz lembrar porque ambicionávamos tanto conhece-la.  Mas então? Não era isso que queríamos saber? A verdade. Exposta e rude, como ela é, sem enfeites, sem uma fitinha vermelha em papel resplandecente. Afinal foi o que pedimos. E diz-se por aí que cada um tem aquilo que merece… mas eu tenho a certeza que não.  Mesmo que doa muito, que nos faça chorar baba e ranho e que pensemos que o mundo acabou… porque não era o que queríamos ouvir. O mundo não acaba, por uma verdade singular. Olha… toma, embrulha, é para aprenderes, para a próxima não cais no mesmo, mas é óbvio, certo que irás cair… porque a verdade é sempre a que queremos ouvir, enfeitada como uma prenda de Natal… que ainda está para vir.  Não devia ser olho por olho, dente por dente, pão pão, queijo queijo, toma lá dá cá, tudo tem um preço e tudo se paga?Pois… mas a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima, já dizia a minha avó.  E mais vale uma vil verdade do que uma mentira escondida.

Paciência é algo que raramente temos, mesmo que sejamos daquelas pessoas que poderiam esperar uma eternidade até que alguém chegasse, sem um bocejo ou sem uma mudança completa de rosto sereno para um mais inquieto.Há coisas que nos irritam, nos tiram completamente do sério (?) (esta expressão intriga-me um bocado, porque tirar do sério, era suposto ser ficar mais alegre, mas está bem), sim, aquelas coisas mundanas como por exemplo: vai dar o novo episódio do Dr. House…mas ó pá, porque é que tinha de falhar a luz, mesmo agora??? Tenho de admitir que é um pouco desconcertante, até porque paro tudo para ver o Dr. House.  Mas falar de paciência leva-me a pensar em algo mais profundo, porque esta está directamente relacionada com o tempo que dispomos, ou nos prestamos a dispor para determinada coisa. Por exemplo, não temos paciência para parar e pensarmos, reflectir um pouco e quem sabe reinventarmo-nos dentro de nós mesmos. Até porque a falta de paciência leva-nos quase sempre a tomar atitudes que preferíamos não ter tomado. A dizer palavras que não queríamos ter dito. Dentro desta grande correria que são os dias, ter paciência para esperar, para perdoar, para meditar e para sonhar, é uma virtude que raramente encontramos.Honestidade é outra coisa ainda mais rara. Claro que falo daquela intrínseca a apenas alguns. As crianças são quase sempre honestas na sua inocência. Mas a honestidade é algo um pouco mais complexo, quando se trata de sermos honestos com os outros, e algo difícil quando se trata de sermos honestos com nós próprios. Por vezes não dizemos alguma coisa para não magoar alguém, e não me refiro a coisas sem importância, como dizermos que gostamos muito de uma prenda, quando na verdade a detestamos. Falo de não sermos honestos com os outros, nem o sermos com nós mesmos antes de tudo. Porque há coisas que não temos coragem de fazer, dizer e assumir. Só raramente… muito raramente.

Él camina despacito que las prisas no son buenas
En su brazo dobladita, con cuidado la chaqueta
Luego pasa por la calle dónde los chavales juegan
Él también quiso ser niño pero le pilló la guerra.

Soldadito marinero conociste a una sirena
de esas que dicen te quiero si ven la cartera llena
Escogiste a la más guapa y a la menos buena
Sin saber como ha venido te ha cogido la tormenta

Él quería cruzar los mares y olvidar a su sirena
la verdad, no fue difícil cuando conoció a Mariela
que tenía los ojos verdes y un negocio entre las piernas
hay que ver que puntería, no te arrimas a una buena.

Soldadito marinero conociste a una sirena
de esas que dicen te quiero si ven la cartera llena.
Escogiste la más guapa y a la menos buena
Sin saber como ha venido te ha cogido la tormenta

Después de un invierno malo, una mala primavera
dime por que estas buscando una lágrima en la arena.

(Uma recomendação de alguém… que quero partilhar.)

Pensar que temos o mundo ao contrário… já te aconteceu? Alguma vez perguntaste porque raio tudo acontece ao mesmo tempo, rápido, sem que tenhas tempo de assimilar o como, o quando e principalmente o porquê? Por vezes sinto que o mundo anda mais depressa e que as acções e os pensamentos não me acompanham. Mas porque raio não nos explicam que não devemos fazer algo que irá desencadear outra coisa qualquer… que não nos é especialmente favorável? Devíamos ser avisados do futuro, para vivermos o presente.Sim, vi o filme, “the butterfly effect”… o bater das asas de uma borboleta pode desencadear um tornado do outro lado do mundo. A teoria do caos.  Mas fez-me pensar na utopia que é, podermos recuar, para corrigir erros ou simplesmente acções que cometemos no passado, mudando o presente. Já viste? Era algo do género: não uses essa faca porque te vais cortar! E então nós não usávamos a faca… comíamos a maçã com casca.  Em coisas mais sérias seria: não tomes essa atitude, porque vai prejudicar a tua vida inteira. Infelizmente ou talvez felizmente, não temos essa oportunidade. Só vivemos uma vez o presente e temos de tomar atitudes ou fazer coisas, desconhecendo o que desencadeiam. Seria bom para evitar desastres, mas por outro lado não teríamos algo que nos move: desconhecer o que vem a seguir. É como estarmos a ver um filme e não podermos avançar para a frente no dvd. E não será por a vida ser um mistério em si própria, por tudo poder mudar numa questão de segundos, que vale a pena viver, para descobrir?  Será que se conseguíssemos mudar o passado para escolher o presente, não seria tudo uma grande confusão, metíamos os pés pelas mãos, e andávamos um pouco mais perdidos do que já estamos? O que nos parece bem ou mal hoje, amanhã pode não parecer e então nunca sentiríamos o prazer de descobrir por nós próprios que a vida vale a pena ser vivida precisamente por não fazermos a mínima ideia do que raio está para vir. E o que nos parece improvável pode acontecer e o que nos parece certo pode nunca estar. Veremos, quando chegar a hora.

Shakespeare escreveu: “ Beijos não são promessas, presentes não são contratos, não importa o quanto te importas, algumas pessoas simplesmente não se importam e não interessa em quantos pedaços o teu coração se tenha partido, o mundo não pára para que tu o repares.”Aprende-se e cresce-se muito mais na dor do que na alegria. Quando estamos alegres, não direi felizes, porque como um amigo uma vez me disse, nunca ninguém é completamente feliz. Às vezes estamos optimistas, diria. Outras (se calhar a maioria) pessimistas e tristes com tudo e com todos. A felicidade não existe, existem momentos felizes que ficam sempre guardados na memória e no coração. Também dizem que o tempo apaga tudo. Mas eu não concordo, porque tudo o que é verdadeiro, fica para sempre. Aprendi há algum tempo que na tristeza, tenho sempre um melhor amigo, alguém que me recebe sempre com alegria e que fica sempre comigo. Que sente quando estou triste, sem eu ter de lho dizer, e que nesses momentos vem para junto de mim e pousa a sua cabeça nos meus joelhos, olhando com o dócil olhar que só um cão pode ter. O meu é um lindo retrevier do labrador, com 30 kg de peso e toneladas de meiguice. Aprendi que o ser humano é todo igual e tem as mesmas necessidades. O que muda é a forma como expressamos a vontade e os sentimentos, como expressamos a vida, a alma e nessa forma de existirmos, somos seres únicos e insubstituíveis e diferentes de todos os outros. Nunca devemos prometer o que não podemos cumprir e só devemos dizer aquilo que realmente sentimos. Há sentimentos que escondemos, numa tentativa vã de nos enganarmos a nós mesmos. Onde estão aqueles que pensamos esquecidos, os que se guardam num canto escondido do coração. E que não nos atrevemos a abrir. Ou a questionar. Às vezes penso que o silêncio diz mais do que muitas palavras, e que não precisamos de dizer o que é evidente. Mas porque será que se sente aquela necessidade urgente de nos expressarmos, com medo que os outros não saibam o que vai cá dentro? O mesmo amigo falou-me de uma história de Neruda que fala sobre dois amigos que estão todos os dias no mesmo bar, não para conversarem, mas para sentirem a presença um do outro, sem ser preciso palavras. E por vezes, quando (não) falamos, lembro-me sempre da história de Neruda – não é preciso palavras porque tu estás aí, e isso basta.Muitas vezes é preciso abdicar do que julgamos ser importante, simplesmente porque algumas coisas não são tão importantes quanto pensamos. Devemos sempre sonhar, acreditar e ter força para mudar, para não afastarmos aqueles que são especiais do nosso caminho. Sonhar apesar das desilusões, caminhar apesar dos obstáculos, lutar apesar das barreiras, acreditar, acima de tudo. A humildade, sinceridade e a bondade são qualidades difíceis de encontrar. Agradeço às pessoas que são assim na minha vida, e mesmo que eu esteja distante de uma delas, em especial, nunca a esquecerei. E acredito que o acaso não existe, tudo tem uma razão de ser. Por mais estranho que nos pareça.Devemos sempre respeitar os sentimentos e decisões dos outros, mesmo que isso implique um afastamento. A vida é feita de ciclos – que têm um princípio e um fim. Nunca estamos certos o suficiente para pensarmos que nunca mudaremos de opinião. O que é hoje, pode não ser amanhã. E o amanhã pode não chegar.O tempo e as regras não existem… somos nós que os fazemos. E as lágrimas mais importantes não são as que derramam os nossos olhos, mas aquelas que saem do coração. Aquelas que calamos no silêncio de um olhar cheio de lágrimas ocultas. Quando não podemos mudar o que pensamos estar errado. Quando contemplamos impotentes a dor, a perda, o desamor.Aprendi a perceber que a maioria das vezes estamos errados…

Blessed with an eye to see things as they are, will you draw me?
Up there on the wall, looking down to us all, you never saw me..
I found a pen, and I outlined a life.
You’ve never cried, I think I saw a tear in your eye.
Your eyes tell the tale, I will not ask again.
Now I see what you’ve lost nothing is quite the same.
By the love of my heart, cut my drawing in half, for I think I’m like you… Should you draw me…
Waiting for my even flow.

Farewell, my passion, you slowly turn pale.
I will long for you warmth, made me feel safe.
I will not draw again, ’till I know it’s my time.
I have lived a long life, should I draw me…

Morning’s here, I must have….failed

Someone save me…

Rámon Sampedro nasceu a 15 de Janeiro de 1943, em Xuño, uma aldeia da província de La Coruña, Espanha. A 23 de Agosto de 1968 ao mergulhar no mar do alto de um rochedo quando a maré tinha baixado chocou com a cabeça na areia provocando a fractura da sétima vértebra cervical. Tinha 25 anos. Durante 30 anos viveu tetraplégico sonhando com a liberdade através da morte. Reivindicou por uma morte digna.Em Janeiro de 1998 ajudado por alguém e em segredo, conseguiu o seu intento.

“O direito de nascer parte de uma verdade: o desejo do prazer. O direito de morrer parte de outra verdade: o desejo de não sofrer. (…)

“Quando se nega o direito de renunciar à dor sem sentido, proibe-se também o direito a ser mais livre, mais nobre, mais justo, à utopia de libertar-se da armadilha em que o enfiaram os legisladores. (…) ” – Cartas desde o Inferno – Rámon Sampedro  

Dizem que quando as pessoas sentem que vão morrer lhes passa pela cabeça como que um filme a grande velocidade de tudo o que lhes aconteceu, de tudo o que as marcou. Não sei qual a velocidade, nem quais imagens… mas e se não morrer? Se ficarem apenas vivas as recordações num corpo morto? Não se pode viver apenas a recordar a vida.

Penso que o cristianismo tem um grave erro que é não saber, ou não querer dar outro sentido á morte. Para mim o mal que os cristãos vêem na eutanásia é, senão falso, errado. A utopia é a libertação da dor, esta devia ser a vontade do hipotético ser criador.Porém o que nos liberta do medo, da condenação é a nossa consciência.

Creio que para tolerar a eutanásia é preciso amar de verdade as pessoas e a vida, e ter um sentido profundo de bondade.  A vontade de abandonar a vida para curar o sofrimento, sem pedir nada em troca, será pedir muito?

Em Portugal a eutanásia é proibida. Ainda. Tal como em grande parte dos países que têm o cristianismo enraízado na sua sociedade. Quando nos deixarmos de hipocrisias e falsos moralismos e conseguirmos ver mais além, a luta de Rámon Sampedro não terá sido em vão. E aquilo por que ele lutou durante 30 anos, fará sentido.

Esta é a minha pequena homenagem a este homem e a todos aqueles que lutam pelo direito a uma morte digna. E apenas a minha convicção. Por tudo isto e por acreditar que o verdadeiro amor é evitar toda a dor e sofrimento do outro, digo sim á eutanásia. 

A vida só é vida racional enquanto for agradável vivê-la, voluntariamente, sem sofrimento nem dor. 

“In a summer day, a man was in the beach, looking two children playing in the sand. They were working a lot, building a sand castle, with towers, gates and tunnels.
When they were almost finishing, a wave came and destroyed everything, letting just the sand and foam.
The man thought that the children would fall in tears, after so caring about the castle, but he was surprised. Instead of cry, they ran to the beach, running away from water. Laughing out loud, gaving hands to each other, they began to build another castle.So, he understood that received an important lesson: we spend much time of our lives building some thing. But, a wave can come and destroy what we spent much time to build.
If this happen, only that person who has someone’s hands to hold, will be able to smile!

All is maden by sand, but just what is permanent is our relationship with people”

“Mar adentro, mar adentro,
y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños,
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.
Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno,
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo;
es como penetrar al centro del universo:

El abrazo más pueril,
y el más puro de los besos,
hasta vernos reducidos
en un único deseo:

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras:
más adentro, más adentro,
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.”