Rámon Sampedro nasceu a 15 de Janeiro de 1943, em Xuño, uma aldeia da província de La Coruña, Espanha. A 23 de Agosto de 1968 ao mergulhar no mar do alto de um rochedo quando a maré tinha baixado chocou com a cabeça na areia provocando a fractura da sétima vértebra cervical. Tinha 25 anos. Durante 30 anos viveu tetraplégico sonhando com a liberdade através da morte. Reivindicou por uma morte digna.Em Janeiro de 1998 ajudado por alguém e em segredo, conseguiu o seu intento.
“O direito de nascer parte de uma verdade: o desejo do prazer. O direito de morrer parte de outra verdade: o desejo de não sofrer. (…)
“Quando se nega o direito de renunciar à dor sem sentido, proibe-se também o direito a ser mais livre, mais nobre, mais justo, à utopia de libertar-se da armadilha em que o enfiaram os legisladores. (…) ” – Cartas desde o Inferno – Rámon Sampedro
Dizem que quando as pessoas sentem que vão morrer lhes passa pela cabeça como que um filme a grande velocidade de tudo o que lhes aconteceu, de tudo o que as marcou. Não sei qual a velocidade, nem quais imagens… mas e se não morrer? Se ficarem apenas vivas as recordações num corpo morto? Não se pode viver apenas a recordar a vida.
Penso que o cristianismo tem um grave erro que é não saber, ou não querer dar outro sentido á morte. Para mim o mal que os cristãos vêem na eutanásia é, senão falso, errado. A utopia é a libertação da dor, esta devia ser a vontade do hipotético ser criador.Porém o que nos liberta do medo, da condenação é a nossa consciência.
Creio que para tolerar a eutanásia é preciso amar de verdade as pessoas e a vida, e ter um sentido profundo de bondade. A vontade de abandonar a vida para curar o sofrimento, sem pedir nada em troca, será pedir muito?
Em Portugal a eutanásia é proibida. Ainda. Tal como em grande parte dos países que têm o cristianismo enraízado na sua sociedade. Quando nos deixarmos de hipocrisias e falsos moralismos e conseguirmos ver mais além, a luta de Rámon Sampedro não terá sido em vão. E aquilo por que ele lutou durante 30 anos, fará sentido.
Esta é a minha pequena homenagem a este homem e a todos aqueles que lutam pelo direito a uma morte digna. E apenas a minha convicção. Por tudo isto e por acreditar que o verdadeiro amor é evitar toda a dor e sofrimento do outro, digo sim á eutanásia.
A vida só é vida racional enquanto for agradável vivê-la, voluntariamente, sem sofrimento nem dor.