Há dias, numa rua qualquer observei aquilo a que posso chamar de imagem da indiferença. Um homem, sentado no passeio, onde passavam dezenas de pessoas, estendeu a mão para pedir uma esmola a uma senhora bem vestida, salto alto, acabada de sair do cabeleireiro, talvez. Esta perante o sobressalto, praguejou: vá mas é trabalhar. Era só o que me faltava…
Eu até concordaria com uma parte da ideia da senhora, se o homem tivesse idade para isso. Era um indivíduo de idade avançada, que sussurrava algo quase imperceptível. Dizia que tinha fome.
Esta é a indiferença que podemos constatar numa rua de qualquer cidade, a qualquer hora do dia ou da noite.
Achamos sempre que não somos felizes porque não temos o que queremos. Pensamos que ficaríamos um pouco mais satisfeitos se conseguíssemos ter isto ou aquilo. Pois, já viram o que pensaríamos se não tivéssemos onde ficar? Onde estar? Se tivéssemos fome e nada para comer?
Aquele homem tinha um elo de ligação ao afecto. O pequeno cãozinho que firmemente estava sentado ao seu lado.
De olhar triste, como o do homem. Será talvez a sua única companhia.
Somos indiferentes por cobardia ou por medo? Sim… pode acontecer a qualquer um de nós. Quando a vida nos pregar uma partida, sem sequer darmos conta de como aconteceu, pode ser que tenhamos tempo para parar e olhar para o homem e o seu cãozinho sentados num passeio.
E aí, sem contemplações deixaremos de ser indiferentes.